23.5.06

sinto sua falta, pixel querido. sei que são anos sem escrever e até achei que esse diário já era, mas... eu precisava escrever pra tirar um pouco de mim a saudade de você, pequeno. onde estiver, saiba que não te esqueço nunca.

16.1.03

...um ano? Meu deus. Muito tempo, muito. Nessa época, no ano passado, eu estava completamente arrasada. Meu querido tinha morrido, o homem que amava não estava do meu lado pra me dar colo. Estava sozinha no meio de um mundo novo. Passara por tudo que havia de mais bonito e de mais difícil. Mal sabia eu que muito ainda estava por vir...
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Como resumir este ano que passou e que não registrei? Houve dor, lágrimas, esperança, reencontro, sonhos, sonhos, sonhos. Desencanto, briga, traição. Sim, me senti traída. Estava doente, do coração e do corpo, da alma, estava só. E ele? Estava nos braços de outras, viajando e beijando e sendo feliz. Eu sabia quando olhei pra ele, eu sabia. Mas perdoei, porque sou mulher e amo, amei muito. Demais, talvez.
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Casei-me. Ou melhor, mudei-me para uma nova casa, com ele. Na esperança de ver o amor vingar. Não vingou. Descobri preguiça, agressividade, distância, má vontade, rancor, solidão. Descobri também um novo sonho, que não ousara sonhar. Um sonho de cozinha arrumada, de comidas gostosas feitas com amor, de dormir junto e acordar com o sol; sonhos de criança brincando no quintal, de bichos correndo, de família; sonhos de amigos rindo e música tocando, de conversas mergulhadas em vinho e amor. Sonhos são doces.
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Separei-me. Quero minha vida de volta, meus sonhos. Dói, ai. Mas passa, eu sei, já passei por isso antes. Vou esquecer.

30.1.02

...de novo? É. Obsessão. Estarei também obcecada? Sim, eu sei, estas palavras têm origens e significados distintos mas são tão parecidas na grafia que não resisto, é quase uma private joke. Ironicamente seus significados fazem todo o sentido pra mim, nesse momento: idéia fixa e cegueira ou obscurecimento da visão, do entendimento. A obsessão pode ser atribuída ao demônio, mas a cegueira... essa é minha, de nascença. E preciso, quero aprender a usar meus verdadeiros olhos.
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Decidida, estou abraçando essa busca incessante e contínua, sem enxergar o caminho. Confiança, fé e esperança agora fazem sentido, mas até então eram somente palavras. Pé ante pé, vou deslindando meu presente e desvendando a mim mesma.
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Confesso: estou com medo.

...é, não cumpri a promessa. Mas voltei, como sempre. A verdade é que coisas boas demais aconteceram. Boas demais até pra que eu acreditasse nelas: vivi num sonho delirante, no éter. Vi-me subitamente feliz, como nunca antes fora, vi novos universos e cores, muitas cores. Cantei, dancei, amei e fui feliz. Descobri que o amor é mais do que eu sabia: muito, mágico, brilhante. E era meu, finalmente. O amor pleno e certo, aquele pra sempre.
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Só que o amor trouxe consigo desafios. Muitos. Só eu sei como mudei, como fiz escolhas, como sofri. E como fui feliz, ah, sim. Um vulcão em erupção, minhas camadas mais escondidas foram vindo à tona. Transbordo, destruo o que há à minha volta, recrio paisagens. Sinto-me isolada, terrível, monstruosa. Força criadora, Pandora, Gaia.
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E me afastei daquele que amo. É mentira: ele se afastou de mim. E eu sei os motivos, sim, sei; e que é melhor assim, também sei. O amor é mais forte que nunca. O desejo cresce e se amplia, povoa meus sonhos. Sonho, sim. Espero. A esperança é doce, alimenta.
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Mas e com a saudade, eu faço o quê?

24.7.01

...prometo: vou escrever mais. A avalanche desfez aquele peso, a tensão, o medo. Ruiu tudo, mas tudo decantou também, novas camadas se apresentam. Há toda uma nova geografia depois da catástrofe e eu sou agora exploradora, com sede de descobertas. Os olhos precisam ainda se acostumar com essa claridade de certa forma irritante, mas já vejo aqui e ali a vegetação, a fauna. O céu é tão novo, tão azul que parece mentira. Será que eu estive em coma ou algo parecido? Eu quero todos os meus anos de volta, todos aqueles anos vividos obscuramente, os anos de sonhos enterrados e vontades não realizadas. Exijo tudo, agora. Por favor?

8.6.01

...é sempre assim: eu só apareço nas horas difíceis, não é? Desculpe. Não sei se estou certa ou errada, mas sei que sofro de qualquer forma. Precisava de consolo, de alguém pra dizer que eu não estou louca, que eu não estou exagerando, que meus sentimentos não são tão frágeis. Por que ainda me importo? Eu sei que não devia. Eu sei. Queria muito aprender a esquecer.

27.3.01

...o que? Não gostou das unhas coloridas, eu sei. Deixe que eu seja assim, estranha, às vezes eu preciso me sentir outra em mim mesma, senão fico louca. Já imaginou ser a mesma pessoa, sempre sempre? De jeito nenhum, eu mataria essa criatura sem hesitar. Amanha coloco um sapato vermelho, e a vontade de matar a mulher do espelho passa. Pronto.

19.3.01

...voltei. Desculpe, diário, desculpe. É, eu sei que eu não devia, mas também sou assim: só procuro os amigos quando estou em prantos, ou quase. Ou quando um relâmpago de felicidade clareia minha visão, e mais que rápido eu quero registrar esse momento, o sorriso efêmero, a luz que brilhou ali por dentro, e foi... Foi. Sempre vai, engraçado. As tristezas, as saudades, as perguntas vão ficando e as respostas fogem, parecem sempre sinistras e falsas, não resistem à uma segunda olhada. Serão todos assim, desconfiados do que é bom ou do que é simples? Hmmm... isso está fácil demais. Afinal, diário, é preciso sofrer, chorar e perder muito pra ganhar um pouco. Não? Diga que não, por favor (embora eu não vá acreditar).
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Olho à minha volta e tudo parece -- quase -- perfeito. A felicidade bate as asinhas nos meus cabelos, beija meu rosto, sopra perfumes... Mas eu sempre acho o "quase". E não importa que TUDO esteja QUASE perfeito, o QUASE é sempre mais forte, mais poderoso... Até a palavra é maior, droga. Tem mais vogais (embora tenha a mesma quantidade de consoantes), enche a boca quando se fala: q-u-a-s-e.
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Quase-certo, quase-errado, quase-feliz... Infeliz. De novo.
-- É, bem-vinda ao lar.
-- Obrigada, já estava com saudades.

13.1.01

...não quero ter filhos. É, isso mesmo, não quero tê-los, não quero embalá-los nem levá-los à escola. Não quero chorar por eles, nem rir com as coisas que eles fazem, nem deixar de dormir porque eles não chegaram. Nem acordar à noite, só pra conferir se eles estão vivos, naquele sono tão quieto que colocamos as mãos perto da boca e do nariz, pra sentir a respiração. Não vou odiar as namoradas do meu filho nem olhar torto para os namorados da minha filha. Não vou achar moderno serem gays ou lésbicas, não vou mostrar minhas tatuagens pra eles. Não vou ter que explicar porque as coisas acontecem do jeito que acontecem, porque as pessoas são ruins, porque os dodôs estão extintos. Não vou ensinar a comer rã ou scargot, nem a temperar um frango corretamente antes de cozinhar. Não vou beijar as mãozinhas gordinhas deles quando pequenos, nem segurar a mão no hospital, na hora de dar pontos naquele corte de bicicleta. Não vou ficar triste porque eles esqueceram o dia das mães, nem alegre porque eles lembraram.
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Vou só pensar em como teria sido, poderia ter sido, e não foi. E talvez seja melhor, pois só terei o que a minha imaginação e vontade permitirem. Talvez não.

6.1.01

...é urgente, eu preciso muito falar. Acorda? Por favor? Obrigada. Desculpa. É que ouvi uma música que faz alguma coisa acontecer dentro de mim. Já ouviu falar dos harmônicos, na música? Não. É assim: quando uma nota soa, outras muitas notas soam, são os harmônicos, outras notas que vibram ao mesmo tempo, pois de certa forma fazem parte ou complementam aquela outra nota. Sempre ouvimos a nota e seus harmônicos, mas nem sempre sabemos disso (em geral não sabemos). Pois é. Mas eu sei. A música especialmente desperta essa consciência em mim -- agora toca In a sentimental mood aqui, Ellington & Coltrane --, e começo a aplicar este conceito para outras coisas tais como o relacionamento com as pessoas. As pessoas especiais são aquelas que fazem soar nossos harmônicos. Ela chega perto, e algo acontece: conta-se uma piada e uma flauta lá dentro toca; um sorriso, e ouço todo naipe de violinos; uma palavra errada, e o oboé... é, o problema são as pessoas-oboé. A tristeza e alegria que elas trazem. Gosto da tristeza, entretanto. Acho até que desenvolvi um especial gosto pelo oboé, instrumento um tanto melancólico, mas suave. Faz chorar aquele tipo de lágrima que alivia, docemente. Sofrimento sem culpa, sem mágoa, sem desejo de vingança. Consolação.

...mais um dia. Mais um ano. Há marcos estabelecidos na vida de cada um, e hoje é um dia especial. Será que um dia vai deixar de ter significado? Com certeza. Tudo passa, tudo passará.

25.12.00

...faz tempo. Tempo. Era o que eu precisava: os tique-taques, as areinhas caindo, pores-de-sol, sóis nascendo. E pensar que a vida continua, não? Continua, apesar de tudo, apesar de todos, apesar de MIM. Ah, insensatez que você fez, coração mais sem cuidado.

23.11.00

...o choque de se descobrir tudo aquilo que sempre desprezou é inominável. Não consigo sequer admitir o fato: estou sofrendo sim, queria que as coisas tivessem sido diferentes sim; não consigo deixar certas coisas para trás, não quero cortar os laços. Não. Sim.
***
Como conceber a própria fragilidade, aquele pedacinho mole da barriga do dragão, onde falta uma escama arrancada quando ele ainda era um bebê? E aquela armadura, o discurso, o riso, o gesto: em um instante não protegem mais. Como é difícil não chorar. Como é difícil chorar. Uma montanha-russa que não tem parada, que não tem subida, só descida, descida, não consigo fechar os olhos e levantar os braços, aproveitar a queda. Eu quero parar.

17.11.00

...complicacoes à parte, viver é muito bom, acho estranho haver pessoas que querem abandonar esse mundo. Por mais difícil que seja, cada dia é realmente um presente, uma nova oportunidade. Fico pensando em cada manhã como uma folha em branco: tento escrever, desenhar, dobrar e amassar as minhas folhas, criando minha biblioteca particular. O problema são aquelas que a gente rasga e joga fora, ou pior, esquece debaixo daquele sofá velho. Queria poder resgatar cada folhinha, reler, rir e chorar: aprender de novo.

16.11.00

...não posso deixar de achar a paixão um tanto deprimente. Ela nos priva dos sentidos básicos de auto-preservação e auto-crítica, ficamos expostos, ridículos, frágeis. E o mais engraçado é que nos achamos poderosos, fortes, inatingíveis: é a mágica dos hormônios. Ah, sim, que não haja dúvida: é um processo puramente químico, uma droga que causa dependência. O tratamento? Basta a paixão se consumar e evoluir para um relacionamento, e estamos curados. Curados não, imunes àquela química provocada por aquela pessoa...
Infelizmente a tolerância é baixa -- sempr precisamos de mais -- e logo estamos lá de novo, vagando pelas ruas, pelos bares -- enquanto nosso antigo objeto de desejo faz qualquer outra coisa da própria vida, obliterado momentaneamente -- procurando de novo aquela maldita droga, viciados, desesperados, abjetos.

15.11.00

...é curioso como certos dias parecem reflexo do que se passa dentro da gente: o dia amanheceu cinza e frio, eu acordo com o telefone tocando, muito sono, um pouco de dor. Muito o que fazer, vontade nenhuma de decidir qualquer coisa, mas a vida bate mesmo à porta -- ou melhor, toca o maldito interfone. Quando percebo estou cantando, e o céu milagrosamente começa a ficar azul. Parece cena de filme, os anjos cantam e deus -- de onde quer que esteja, se é que está -- ordena que as nuvens se dissipem, lá vem aquele azul dourado do sol chegando. Só resta mesmo agradecer, a quem quer que seja: muito obrigada pelos bons e maus momentos. Aqueles não fazem sentido sem estes, que por sua vez seriam só crueldade sem aqueles. Obrigada.

13.11.00

...sem modos, eu simplesmente jogo a toalha molhada na cama e fico me perguntando qual é o propósito disso tudo. Esses cabides organizados, cor com cor, manga comprida com manga comprida, camisa com camisa... e minha cabeça, meu coração completamente em desalinho.
Um tanto perturbada, junto calcinhas, sutiãs e meias e jogo pela cama, em cima do edredon branco: um estranho jogo de runas se configura, colorido. Branco, azul, laranja e vermelho; rosa, cinza, preto; florzinhas e rendinhas. Hmmmm... acho que ainda há esperança.

...e quantas vezes eu me peguei chorando e rindo ao mesmo tempo, pensando nas coisas que de tão boas são ruins? A culpa é o veneno dos nossos dias, veneno mais poderoso que qualquer química ou remédio; ela nos é administrada em pequenas doses disfarçadas de carinho, de lição, desde que somos tão pequenos que nem sabemos que somos. E quando menos esperamos, lá está ela, condicionando nossos atos, restringindo nossos movimentos, destruindo nosso prazer. Porque nenhum de nós é impedido de fazer nada, mas a culpa destrói o prazer decorrente do que se fez.

11.11.00

...minha vida começa hoje. Aliás, nossa vida começa hoje, querido diário. Vamos desbravar o mundo?
Parabéns pra você, nessa data querida...

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